O filme As Chaves de Casa (2004) do diretor Gianni Amelio trata com muita sensibilidade da relação entre a família e a pessoa com deficiência, que no caso específico do filme se trata de um garoto com paralisia cerebral devido a complicações no seu nascimento ocasião na qual perde a mãe, passando a ser cuidado por seus tios, pois o pai só aos poucos consegue assumir sua paternidade.
A difícil relação pai/ filho
Paolo (Andrea Rossi) é o filho que Gianni (Kim Rossi Stuart) não gostaria de ter por isso passa boa parte de sua vida negando-o, até o
momento em que pode assumir a responsabilidade por ele, mas o estabelecimento de uma relação verdadeira com o filho se dá de forma progressiva e com muitas dificuldades, o pai deve acompanhá-lo pela primeira vez as sessões de fisioterapia no hospital de Berlim, este é o local em que toma contato com um mundo que não conhecia, passa a conviver com pais na mesma situação que a sua como Nicole (Charlotte Rampling) que se dedica integralmente aos cuidados da filha ao mesmo tempo em que passa a admirar a determinação do seu filho durante a convivência, levando-o aos poucos a assumir sua paternidade, e é dessa forma que descobre seu filho, seus gostos, suas fantasias assim como este descobre o pai, suas fraquezas, seus limites para muito além das aparências.
Podemos ver que a chegada acidental de uma criança com deficiência em uma família é capaz de desestruturá-la, mas isso não se deve unicamente as dificuldades práticas que uma pessoa com limitações físicas pressupõe, antes e com grande relevância os aspectos psicológicos na relação entre pais e filho com deficiência, determinam o sentido que tal deficiência terá na vida dessas pessoas, nesse sentido, mesmo nos casos em que o fator orgânico entra em jogo a criança terá que encarar não apenas uma dificuldade inata, mas ainda a maneira como os pais utilizam essa dificuldade orgânica no seu mundo psíquico e que acaba sendo comum a esses indivíduos, ou seja, a limitação física ou intelectual passa a ter um sentido específico para os pais na relação com o filho mantendo um padrão de conduta que pode ser no sentido de negar autonomia ao filho quando os pais se baseiam na crença de este é incapaz.
A chegada da pessoa com deficiência
Para os pais o nascimento de um filho é como uma compensação, após muito tempo de preparação e expectativas o nascimento corresponde a objetivação da felicidade e quando uma certa deficiência é constatada perde-se muitas referências de identificação que estão ausentes nesse filho, vive-se então a angústia, isto é, a impossibilidade de simbolizar toda a situação vivida em palavras, vemos no filme duas alternativas complicadas para os pais: uma é a negação e a outra é a dedicação exclusiva a esse filho, quando o personagem do pai nega qualquer relação com um filho que nasce com uma deficiência, pois não é capaz de identificar-se com este, a única alternativa é se ausentar até que possa elaborar a perda de uma imagem de filho que não encontra similaridade no real.
A psicanálise no entendimento da deficiência
Podemos dizer junto com Mannoni (1995) que o nascimento de um filho pode ser para a mãe em particular, a concretização de seus sonhos, algo que que a preenche, uma possibilidade de reparar aquilo que na sua história de vida estava incompleto ou teve que renunciar, desde antes de sua concepção o filho tem um lugar imaginário na mãe que com o nascimento se objetiva no bebê, quando este filho nasce com uma deficiência passa a denunciar para ela suas próprias deficiências passa a dedicar-se exclusivamente a ele numa tentativa reparadora de si própria, contudo é uma relação que acaba por ocultar um desejo de aniquilação daquele que carrega seus sonhos perdidos, como podemos ver em um certo momento do filme, no qual Nicole até então vista por Gianni como a fortaleza em pessoa declara seu desejo de morte em relação a sua filha com paralisia cerebral, a pergunta que se faz é: “porque ela não morre?” No entanto, não que ver sua questão respondida, por isso continua a fazê-la, no momento dessa indagação o que necessita é de uma testemunha a qual possa demonstrar que por detrás de uma máscara de tranquilidade se encontra a angústia. Na sua relação com uma filha que não corresponde aos seus desejos a ausência de diálogo cria uma relação onde a solidão é total, preocupando-se com ela cria-se uma relação onde o “doente” é aquele que é cuidado, não aquele que cuida.
O lugar da pessoa com deficiência
A pessoa com deficiência não tem lugar na sociedade, seu destino é sempre condenado já desde o momento da constatação de sua diferença, tem por destino tornar-se objeto de alguém ou de algo, é levado a se re-educar desde muito cedo, primeiro pela mãe, depois pelos diversos dispositivos sociais, somente quando se oferece para a pessoa a possibilidade de ser, isto é, reconhecer-se como ser humano autônomo é que os benefícios da re-educação podem ser melhor aproveitados, isso porque sua força de vontade não se encontra dependente de um outro, só então as noções de deficiência poderão ser questionadas.
Referência Bibliográfica:
MANNONI, M. A criança retardada e a mãe. 4ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995.