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quinta-feira, 25 de julho de 2013

Línguagem cinematográfica: Reflexões a partir do filme “A língua das mariposas”


         A educação e a integridade humana

O cinema contribui para desenvolver o que se pode chamar de competência para ver, analisar, compreender e apreciar qualquer história contada em linguagem cinematográfica.

 "A Língua das Mariposas", um filme do diretor José Luis Cuerda (um ícone do cinema espanhol), que permite uma reflexão interessante sobre a escola e a educação. O filme tem como pano de fundo o período imediatamente anterior à Guerra Civil espanhola e narra as descobertas do menino Moncho na escola e sua amizade com o dedicado professor Don Gregório.

Tenho assistido profissionais da educação falando e escrevendo sobre projetos pedagógicos, modelos de aprendizagem, técnicas, funções, sentidos e papéis, como se houvesse uma receita, uma dose certa e um uso adequado dos ingredientes que levasse à feitura do tão sonhado quitute: a competência docente.

O filme "A língua das mariposas" (La lengua de las mariposas), provoca reflexões sobre o assunto. Tendo como contexto, o início da guerra civil espanhola, o filme apresenta o cotidiano de uma sala de aula em uma pequena escola interiorana e seu único professor. O velho mestre tem alunos de tamanhos e idades bastante variáveis e como cenário a habitual sala envidraçada e o clássico quadro negro.

Há uma cena em que o professor tenta falar com a classe, mas vê-se impedido pela desordem e pelo barulho que os alunos fazem. Ele se vira para a janela a olhar a paisagem lá fora, em silêncio, até que as crianças percebam que ele não está mais tentando falar e se calam. Ele, então, se vira para a classe e não dá sermão nenhum, ou lição de moral. Apenas diz algo mais ou menos assim: “A primavera está chegando e poderemos ter nossas aulas no bosque. Poderemos ver borboletas e mariposas... Vocês sabiam que as mariposas não têm língua, mas sim probóscide, um órgão que se assemelha a uma tromba..." E segue contando sobre mariposas e outros bichos, enquanto têm vidrados nele, dezenas de olhares curiosos. E quando mais tarde, eles vão ao bosque, o professor vai ensinando pelo caminho um pouco de biologia, outro tanto de botânica, outro de geografia... Salpicos de conhecimento, pequenos sutis convites à descoberta de outros curiosos caminhos; um tênue fio que, seguido, pode levar a uma caminhada prazerosa ao mundo das ideias e do saber.

Alguns educadores assistiram ao filme e admiraram o velho mestre que “não tinha projetos didático-pedagógicos, não tinha outro material à disposição que não a natureza, não contava com o apoio de coordenadores, pedagogos, psicólogos e fonoaudiólogos, mas sabia e queria despertar o interesse e a curiosidade em seus alunos, e talvez, neste fato resida a magia e a beleza do ensinar” (TEIXEIRA, 2002).

Não pretendo aqui divulgar uma ideia romântica e utópica sobre educar, nem propor que saiamos todos a passear por bosques e campos, caçando borboletas e colhendo flores. Não. Proponho que nos apropriemos de todos os recursos disponíveis, que assumamos o ambiente escolar como ele se apresenta, seja numa sala de informática com computadores de última geração, seja numa escola rural com velhas carteiras e escassez de giz. Proponho que, incorporando esse ambiente, ele deixe de fazer diferença e o verdadeiro estímulo para nossos alunos esteja em nossa capacidade e em nosso desejo de ensinar. O professor tem a obrigação de ser mediador entre o conhecimento que existe no mundo e as mentes (e a sensibilidade) de seus alunos.

Furtar-se disto, culpando as estruturas físicas ou sócio pedagógicas da escola pelo seu insucesso, é abrir mão da possibilidade de descortinar mundos de sensações, experiências e aprendizados para esses seres que estão sob nossa tutela e responsabilidade. Não há manuais de auto ajuda que façam um professor ser um bom professor, mas há leituras a serem feitas, filmes a serem vistos, músicas a serem ouvidas, museus a serem visitados e são essas viagens que poderão fazer diferença na vida e no trabalho de um professor.

Sempre digo que não se ensina ninguém a desenhar, mas pode-se ensinar a olhar. E o olhar pode ser mais e mais aprofundado, diverso, curioso. Esse mundo tão cheio de armadilhas  merece de nós um olhar sherlokiano e isso se aprende sim. E o professor pode ser o “motivador” dessa aprendizagem. Seja apresentando aos seus alunos a Tarsila ou o Picasso, ensinando-lhes técnicas de xilogravura ou de papel reciclado, lendo um poema, ou uma história em quadrinhos, ouvindo uma canção, examinando atentamente uma formiga ou resolvendo um problema de física.

É por meio de uma prática reflexiva, às vezes solitária, às vezes grupal, que o professor consegue preencher suas lacunas e completar seus vazios. Um profissional reflexivo aceita fazer parte do problema. “Reflete sobre sua própria relação com o saber, com as pessoas, o poder, as instituições, as tecnologias, o tempo que passa a cooperação, tanto quanto sobre o todo de superar as limitações ou de tornar seus gestos técnicos mais eficazes."[1] PERRENOUD, Phililippe.

O cinema contribui para desenvolver o que se pode chamar de competência para ver, analisar, compreender e apreciar qualquer história contada em linguagem cinematográfica. longe de ser apenas uma escolha de caráter exclusivamente pessoal, constitui uma prática social importante que atua na formação geral das pessoas. A educação que é ministrada no interior da escola é uma das muitas formas de socialização de indivíduos humanos, um entre muitos modos de transmissão e produção de conhecimento, de constituição de padrões éticos, de valores morais e competências profissionais. E em sociedades audiovisuais como a nossa, o domínio dessa linguagem (cinematográfica) é requisito fundamental para se transitar bem pelos mais diferentes campos sociais.

Seguindo esta estratégia da criticidade com a esperança de ensinar continuo trazendo aqui mais algumas anotações sobre estas ricas discussões: O currículo é o local da mudança, é o espaço onde se colocam as expectativas e projetos de construção de um ser humano, qualquer que seja o modelo esperado (competente, vencedor, crítico, cidadão...). É a escola que, de maneira organizada (ou ainda de modo caótico), possibilita ao aprendiz a escolha, o posicionamento (crítico ou não) perante o universo de situações enfrentadas no dia-a-dia escolar. Na escola, toma-se partido, une-se a um grupo ou outro, iniciam-se/esboçam-se futuras opções. A educação é o espaço da formação e da informação. Até sociedades primitivas partem do exemplo a ser seguido. Na escola, desperta-se o interesse do aluno para um ou outro aspecto da cultura humana através das disciplinas. Forma-se o ser humano através da apresentação do conhecimento acumulado, permitindo que ele também construa o seu. A escola é um mundo em miniatura, por mais clichê que esta afirmação possa parecer, e ensina ao aluno a vida em grupo e em sociedade. As oportunidades esportivas e de trabalho em equipe servirão para futuras experiências profissionais. É no espaço escolar que se solidificam valores morais e éticos, ainda que implícitos ou velados no processo da aprendizagem e nas relações sociais. A escola é um espaço controlado em que se pode fazer uma leitura do mundo, e que prepara o educando para viver nele.

Diversos momentos do filme comprovam os processos motivadores na educação: a descoberta do menino Moncho e seu encantamento pela escola e a admiração pelo conhecimento do professor; a sua amizade com o educador e o maior presente que recebeu – a literatura: A Ilha do Tesouro – a chave de acesso ao conhecimento; os passeios (estudos do meio) em que se levava a informação da sala de aula para o mundo que o menino já conhecia; as conversas e os questionamentos que ele levava para casa, perguntando isto ou aquilo, ou simplesmente gabando-se do que havia aprendido; o respeito, a partir da superação de um trauma (quando o professor demonstra o seu respeito no primeiro dia de aula); a confiança que depositou no professor ao perguntar-lhe sobre a morte (o que era?).

Se analisarmos por estes exemplos, a escola pode tudo, pode realmente transformar o mundo! Por outro lado, talvez a escola e a educação nada possam fazer pelo ser humano: Os chamados “apelos” do mundo são bastante fortes e muitas vezes sufocam e/ou impedem o trabalho de um professor e de uma escola alternativa. As crenças e os valores da família e do grupo social a que pertence o aprendiz são elementos muito poderosos na formação do ser humano. O modelo social vigente ou considerado superior é uma meta a ser seguida e nem sempre é o mesmo indicado pela escola que o aluno frequenta. Influências culturais seculares muitas vezes servem de atalhos que levam os alunos a lugares opostos aos que a escola aponta como adequados. Pressões culturais, étnicas, podem fechar as portas abertas pela educação, apontando para uma realidade imutável. Pode haver até a confrontação, o questionamento das posições da escola.. Fatores econômicos localizados ou globais interferem na vida do aluno a ponto de levá-lo até à evasão.

Conflitos emocionais, por sua vez, surgidos fora do espaço escolar também podem tirar o aprendiz da escola e dificultar o seu desenvolvimento. Novamente, vamos encontrar exemplos no filme: a influência e a pressão do pai rico na escola (tentando determinar/orientar o modo de agir do professor); a pressão do padre que questionava o conteúdo estudado pelos alunos e o consequente distanciamento da religião; a força da mãe no momento de crise (quando surge a repressão política e ela orienta o agir e mesmo o falar de cada um); o calar do pai e seu sofrimento por calar, por ter medo; a postura da sociedade que, por questões de sobrevivência, reúne-se contra pessoas do próprio convívio; o medo do menino Moncho, que segue o modelo social e reage igualmente contra o professor que tanto admirava... Evitando um posicionamento totalmente positivo da função da escola e do papel exercido pela educação na formação dos indivíduos, e evitando o olhar totalmente negativo, é importante lembrar que, se a sociedade como um todo educa através de seus modelos e exemplos, sem a escola, a situação estaria ainda pior.

A educação abre sim portas e permite escolhas. Palavras tão parecidas essas: escola e escolha... O aluno pode aprender, no meio escolar, a posicionar-se criticamente perante a sociedade. Lembrando novamente A Língua das Mariposas, é como que um “salvamento” do ser humano (o professor impede uma séria crise de asma). Figurativamente, poderia impedir que o jovem estudante fosse seja “sugado” e/ou sufocado pela sociedade em que vivia. O educador pode repetir, como o velho mestre, que “ninguém lhes roubará o tesouro da liberdade: Voem!”. Alguns vão ouvir, alguns certamente irão voar... Infelizmente, para os professores, nem tudo sempre corre bem. É plantar sem saber se vai haver cuidados com a planta...

Ainda em referência ao filme, há ocasiões em que nos restam, a nós, educadores, como a Don Gregório, apenas o vômito, os insultos e as pedradas. Aos meus amigos e professores eu gostaria de dizer que ao descerrarem janelas, abrirem portas, disponibilizarem caminhos, construírem picadas no meio da mata do saber instituídos, vocês o faz com certeza, com um só intuito, o de ensinar a conhecer o mundo.

Espero tê-los motivados ao menos a assistir ao filme e talvez vocês façam outras analogias, ou descubram outros tesouros...


Lúcia Ribeiro



[1] PERRENOUD, Phililippe. Formar Professores em Contextos Sociais em Mudança. Prática Reflexiva e Participação Crítica. In: http://www.unige.ch/fapse/SSE/teachers/perrenoud/php_main/php 1999/1999 34 html. Tradução de Denice Bárbara Catane, SENAC, São Paulo, 2002.
Referências bibliográficas
DUARTE, Rosália. Cinema & Educação. Belo Horizonte, Autêntica, 2002.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo, 28 ed., Paz e Terra, 2003
PERRENOUD, Phililippe. Formar Professores em Contextos Sociais em Mudança. Prática Reflexiva e Participação Crítica. In: http://www.unige.ch/fapse/SSE/teachers/perrenoud/php_main/php 1999/1999 34 html. Tradução de Denice Bárbara Catane, SENAC, São Paulo, 2002. Acessado em 01.05.07.
TEIXEIRA, Ana. A língua das mariposas. Texto não publicado. São Paulo, 2002. Disponível em: www.anateixeira.cjb.net. Acessado em 01.05.07.

Fonte: Revista Espaço Acadêmico 
por EDNALDO GONÇALVES COUTINHO            

 
 

 

 
 





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